Licença poética ou erros por desconhecimento das regras gramaticais?

Como alguns sabem a licença poética é utilizada para permitir o uso de linguagem incorreta, em desacordo com a norma culta da Língua Portuguesa. Isso se dá, na maioria das vezes, em textos poéticos, músicas, entre outros, para que o escritor ou autor tenha liberdade de manipular as palavras do jeito que bem entende, passando ao leitor aquilo que ele pensa. A música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, é famosa por esse uso da linguagem já na sua primeira estrofe: “Quando “oiei” a terra ardendo
qual fogueira de São João…”. Fica claro que, o erro cometido na música é proposital, pois visa retratar o modo de falar, neste caso, do sertanejo nordestino.

Desvios da norma correta ortográfica, que se aproximam mais da linguagem falada, ou mesmo sérios erros de português podem ser encontrados com facilidade por aí, principalmente na Internet. Infelizmente, esse mau uso da Língua Portuguesa parece, inclusive, ter sido popularizado com o próprio advento da Web e, essas falhas, já não podem ser consideradas meros erros de digitação.

As redes sociais, e-mails, salas de bate papo, entre outros, são produtos da Internet, que na ordem da velocidade, acabam por não prezar a qualidade. Por isso, são utilizadas diversas formas de abreviação das palavras como exemplo, as mais comuns: “vc”,
“tbm”, “q”, cujos significados são: você (pronome de tratamento), também (advérbio de inclusão) e que (pode ser usada como preposição, interjeição, substantivo, advérbio, pronome e conjunção).

Essa forma de escrever pode ser explicada como o desejo de reproduzir um ritmo de conversa oral. Mas será que o hábito dessa escrita pode nos influenciar de uma maneira mais profunda do que imaginamos ou seu uso fica condicionado apenas à Internet? É possível que essa linguagem venha, no futuro, a modificar a língua que falamos?

Essas perguntas não podem ser respondidas na mesma velocidade de uma conexão 4G, mas é provável que sim, pois como a língua é dinâmica tem a característica de se transformar ao longo do tempo, porém na dimensão atual, o uso errôneo dessas palavras não pode e nem deve ser praticado ou levado à diante.

Quando estamos no universo digital, em uma conversa informal, o uso incorreto da gramática, assim como as abreviações é perfeitamente compreendido, mas quando esse hábito ultrapassa o ambiente informal, ganha outras formas. No âmbito profissional, por exemplo, o uso indevido e incorreto das palavras gera incompreensão e pode até mesmo custar vagas dos candidatos e profissionais.

 

Será o analfabetismo digital o novo funcional?

Hoje, mais da metade dos brasileiros têm acesso à Internet. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), o total de pessoas com acesso à web no Brasil no primeiro trimestre de 2013 chegou a 102,3 milhões, registrando crescimento de 9% sobre os 94,2 milhões registrados no terceiro trimestre de 2012. Junto a esses dados um paralelo pode ser traçado com relação às ferramentas de navegação, que estão simplificando seu uso para maior inclusão digital, assim como o crescimento econômico da classe C, impulsionando a venda de aparelhos digitais com acesso à Internet.

Porém, uma grande parcela dessa população com acesso ao mundo digital é considerada analfabeta funcional. Isso significa que grande parte dos erros na Internet é cometida pelo desconhecimento das regras gramaticais dos usuários. A falta de acesso à educação pública de qualidade ainda é grande no país, o que pode explicar essa situação onde é mais fácil abrir uma conta numa rede social, do que completar o Ensino Fundamental. Isso pode explicar a causa dos erros gramaticais espalhados pela Internet, não por falta de vontade dos seus usuários, mas pela falta de oportunidades em um contexto de muitas dificuldades econômicas.

A chave para mudar esse cenário está nas mãos dos governantes, que com políticas públicas, deveriam investir mais na educação, ao invés de espancar seus professores, servidores da educação brasileira, com palavras e ações. O analfabetismo funcional e agora digital é muito mais abrangente e requer mais atenção em comparação aos erros de português na Internet, que mesmo doendo os olhos de alguns, passam ainda despercebidos por outros.

Fatores como digitação rápida, economia de tempo, total informalidade da Internet aliados à redução de horas gastas em contato com a norma culta da língua, tanto dentro das salas de aula, quanto no hábito da leitura diária de livros e jornais, entre outros, influencia essa nova prática que estamos até nos acostumando a ver: os erros de Português na Internet. Por outro lado, os considerados analfabetos digitais, que nada têm em comum com os licenciados poéticos, são as maiores vítimas do crescimento acelerado do uso da web.

 

7 outubro 2017